E quando os nossos adoecem?

E quando os nossos adoecem?

Muitas vezes lidar com a dimensão da cruz em nossa carne, é grande desafio, mas é dinâmica a se exercitar, se aprender.

 

E quando sentimos a ausência dos nossos; daqueles mais ativos, mais solícitos, mais presentes? Quando a patologia os alcança, ou a alma está enfraquecida, cansada, tíbia? Quando os nossos são alvo do que todos poderiam viver, menos eles: a impossibilidade da ação, a possibilidade da ineficiência? O que fazer, ou esperar? Tal resposta não é tão evidente, à medida que toda experiência gera descoberta e autoconhecimento profundos.

 

Existe também uma permissão de Deus para que sejamos mais solícitos, atentos e tenhamos um novo olhar sobre a humanidade e resignação do outro, ante sua possibilidade de impotência. É provar da humanidade em sua dimensão mais frágil, mas dar uma chance completamente nova à dimensão sobrenatural, que a partir de agora responderá mais enfaticamente por aquela vida. Nas palavras do Santo Padre: Numa sociedade que ostenta o culto da eficiência, da saúde, do sucesso e que marginaliza os pobres e exclui os «perdedores», podemos testemunhar, através da nossa vida, a verdade destas palavras da Escritura: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12, 10).*

 

Um breve testemunho pessoal: hoje, na vivência de minha primeira gestação, onde tudo caminhava bem e serenamente até que aos sete meses, precisei permanecer alguns dias internada por súbitas alterações metabólicas. Perceber-me fraca, vulnerável e por muitas vezes sem saber ao que ou quem recorrer, deu-me a dimensão, mesmo breve, do quão difícil é galgar o limite de si e a dependência do outro. Permaneci ali, em algumas tardes completamente só, rendida aos acessos nos braços, olhando para o teto na penumbra do quarto, sem desejo de correr as contas do terço que permaneciam parados entre meus dedos inchados. Pensava no meu interior: – Meu Deus; quero ir embora… Por que as horas não passam?  Não havia desejo de acessar redes sociais, nem de dar constante satisfação de como estava, mas por vezes esperava que alguém adentrasse àquela porta e me falasse como ia o mundo lá fora, me envolvesse numa boa conversa e me fizesse sair daquela situação, redescobrir o sentido belo e santo da maternidade que estava perdendo, nas preocupações com os exames alterados. Que oportunidade poderia ter perdido, em olhar além da dor… Ao mesmo tempo em que queria poupar os meus, tão cansados e necessitados de estarem em seus trabalhos.

 

Muitas vezes lidar com a dimensão da cruz em nossa carne, é grande desafio, mas é dinâmica a se exercitar, se aprender. Mais difícil, porém é que não aprendemos a lidar com a cruz do outro, ou ainda nos sentimos corresponsáveis por essas cruzes, querendo poupá-los ou evitá-los a todo custo. Podemos ainda, nos afastarmos, por não sabermos lidar com o limite, a reclamação, o questionar humano. Preferimos quem tem respostas, não questionamentos.

 

Recentemente, deparei-me com alguém que após perceber-se constantemente doente e só, hoje intitula-se ateu.  Questionei-o. Ele alegou não conseguir esperar mais nada de um Deus que não a cura e permite que permaneça sofrendo. Meu coração encheu-se de piedade, para fazê-lo entender a dimensão da cruz, da oferta, da permissão de Deus para que fosse santo, mas… A única resposta que ele precisava naquele momento era amor… “Adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver”. (Mt 25, 36)  Precisava eu ser a ovelha, dos que estarão à direita, o grupo dos benditos do Pai. Quando permaneci tão brevemente no hospital, lembrei-me dessa pessoa, e tive um olhar menos julgador de sua radical maneira de pensar, ao mesmo tempo em que a lógica caiu por terra e permaneceu a misericórdia que me fez olhar com mais respeito o sofrimento dos que ainda ali permanecem.

 

Muitos estão “distantes”, mas não se afastaram subitamente. Aos poucos podem ter perdido o sentido, protelado a oração, sentiram-se sozinhos, sem espaço, sem motivação, velhos ante algumas exigências. Outros não sabem como pedir ajuda, pois já se endureceram ante suas resistências. Muitas podem ser as causas para a alma que adoece o corpo que enrijece o coração que passa a rejeitar… Mas se em todas as justificativas permanecesse o Amor Primeiro, que impulsionou? A alavanca que lançou, sem grandes estrondos, sem grandes circunstâncias, sem grandes motivações… Simplesmente amou e daí o sentido se fez. Importante é se saber que esse amor permanece, ali… Nos cantos do que antes era prioridade, no raso do que antes era profundo.

 

‘Que entre nós não se vejam rostos tristes, pessoas desgostosas e insatisfeitas, porque “um seguimento triste é um triste seguimento”. Também nós, como todos os outros homens e mulheres, sentimos dificuldades, noites do espírito, desilusões, doenças, declínio das forças devido à velhice. Mas, nisto mesmo, deveremos encontrar a “perfeita alegria”, aprender a reconhecer o rosto de Cristo, que em tudo Se fez semelhante a nós e, consequentemente, sentir a alegria de saber que somos semelhantes a Ele que, por nosso amor, não Se recusou a sofrer a cruz’**.

 

Envelhecemos e onde penduramos nosso alforje? Onde está a bainha da espada? Qual esteio nos apoiará a partir de agora? Não há fórmula ou receita para a solidão ou sentimentos de incapacidade, mas há algo que nunca foi em vão: a medida do amor sem medidas. Da oferta dada e nunca retida. Da missão sofrida, do que foi ofertado no silêncio, no escondimento, na cruz secreta… Aos olhos de Deus há um mérito particular. Precisamos ser menos enfermos e mais doutores, menos vítimas e mais autoridades no quesito vida e isso independe da nossa condição e limite humanos. Nas sábias palavras de São João da Cruz: “No crepúsculo da vida seremos julgados pelo amor”.

 

Michele Rodrigues Lobo Cunha

 

 Consagrada da Comunidade de Aliança, professora, esposa e mãe (Shalom Santo Amaro, SP)

 

[*Carta apostólica do Papa Francisco em ocasião ao ano da Vida Consagrada (2016)]

 

[**Mensagem do Papa Francisco para o 26º Dia Mundial do Enfermo (11 de fevereiro de 2018)]