É possível evangelizar sem a oração?

É possível evangelizar sem a oração?

A força dos profetas, dos mártires, dos apóstolos é uma só: a oração. É no diálogo íntimo, pessoal com Deus que brota uma força que nada e ninguém pode parar. Não podemos anunciar uma pessoa desinteressadamente se não somos apaixonados por esta pessoa. O apóstolo o evangelizador é alguém que, tendo encontrado Jesus, como Paulo na via de Damasco, no deserto ou no silêncio, foi seduzido e vencido por um ideal. Quantas vezes me parece ouvir no fundo do coração e no mais íntimo do ser as mesmas palavras que Paulo ouviu no caminho de Damasco: Saulo, Saulo por que me persegues? E Saulo, tomado por medo, mas também fascinado pela luz e pelo amor, responde: “quem és tu, Senhor?” E a voz confirma: “sou aquele Jesus que tu persegues”…

 

Hoje nós somos perseguidores de Jesus quando não assumimos a missão evangelizadora, ou quando por medo, preferimos um evangelho “dietético”, que se acomode a todas as correntes do pensamento humano. Eu tenho medo que às vezes anuncie um Cristo revestido e apresentado com tantas facetas, para se entender um Cristo que tem um não sei quê de budismo, de marxista, de muçulmano, de espírita, de protestante… um Cristo tão ecumênico que não é mais o Cristo do evangelho do anúncio corajoso que não tem medo. Ser ecumênico não quer dizer adaptar o Cristo a todos os movimentos, mas sim ser fiéis ao Cristo até à morte. Parece-me que hoje nos falta a coragem de sermos mártires, o desejo de sermos mártires, e só assim poderemos falar de Jesus com convicção e amor.

 

Ninguém pode fugir desta missão de proclamar. Por isso que a oração é a fonte de onde brota a evangelização. O Papa João Paulo II o tem recordado quando nos fala que toda pastoral deve ser pastoral da oração.

 

Para esta pedagogia da santidade, há necessidade dum cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração. O ano jubilar foi um ano de oração, pessoal e comunitária, mais intensa. Mas a oração, como bem sabemos, não se pode dar por suposta; é necessário aprender a rezar, voltando sempre de novo a conhecer esta arte dos próprios lábios do divino Mestre, como os primeiros discípulos: « Senhor, ensina-nos a orar » (Lc 11,1). Na oração, desenrola-se aquele diálogo com Jesus que faz de nós seus amigos íntimos: « Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós » (Jo 15,4). Esta reciproicidade constitui precisamente a substância, a alma da vida cristã, e é condição de toda a vida pastoral autêntica. Obra do Espírito Santo em nós, a oração abre-nos, por Cristo e em Cristo, à contemplação do rosto do Pai. Aprender esta lógica trinitária da oração cristã, vivendo-a plenamente, sobretudo na liturgia, meta e fonte da vida eclesial, mas também na experiência pessoal, é o segredo dum cristianismo verdadeiramente vital, sem motivos para temer o futuro porque volta continuamente às fontes e aí se regenera.(NMI 32)

 

Quem não reza não vai sentir o entusiasmo, a paixão, o amor transbordante por Jesus. E o anúncio que não toca o coração se esvai. São João da Cruz, com seu tom duro, mas certeiro, me faz medo e me coloca em crise: “muito bem fariam os pregadores do evangelho”.

 

Quem sabe se eu mesmo deva rever o meu apostolado e me colocar na escuta de Jesus como Maria em Betânia e, escutando Jesus, possa falar dele com mais amor. É o caminho da oração que nos dá a alegria de anunciar; não porque o anúncio é acolhido mas porque uma força maior do que nós nos manda anunciar.

 

Maria, modelo de oração, nos ensine a sermos orantes porque somente assim a evangelização será o jorrar, nos corações e nas almas, Jesus fonte de salvação. E o mesmo Jesus o evangelizador do Pai, antes de anunciar a boa nova, se retirava ao deserto, à noite, na montanha, para estar a sós com o Pai e escutar do Pai o que ele deveria dizer. Se Jesus rezava para anunciar o Evangelho será que é possível ainda anunciar o Evangelho sem a oração? A evangelização sem a oração é uma ideologia boa, mas que não trás a salvação.

 

Edith Stein dirá que a fenomenologia, a guerra, não trazem a salvação da humanidade, somente a paixão de Jesus salva o mundo. Nada de mais belo que poder entrar conscientemente na “dinâmica da evangelização”, fruto da oração. Evangelizar quer dizer “escutar o que Deus quer que se anuncie e não anunciar o que nós queremos”… O evangelizador não tem pensamento próprio, ele deve sempre dizer: meu alimento é fazer a vontade do Pai.