Editorial: Eleições

Editorial: Eleições

Nossa comunidade se vê impelida a ajudar e orientar todos aqueles que vivem a angústia e incerteza diante das escolhas que deverão fazer. Consideramos oportuno publicar este Editorial tendo em vista a iminência das Eleições de 2018 e o momento delicado no qual se encontra a nação brasileira.  Dentre os aspectos que fazem deste momento merecedor de extrema atenção e discernimento, podemos destacar a possibilidade do País estabelecer um marco efetivo no combate à corrupção, iniciar uma reforma política que ordene as estruturas de poder em favor de um desenvolvimento onde o bem dos homens e a solidariedade sejam os critérios norteadores, mas também a polarização político-ideológica que compromete a paz social, o crescente ataque global à cultura defensora da família e da vida, além do atraso histórico no que se refere ao desenvolvimento estrutural e econômico que inclui a todos.

 

Por estes motivos, discernir e escolher sem paixões e com seriedade os candidatos nos quais iremos votar para os cargos públicos em questão é tarefa de altíssima responsabilidade. Compreendemos que nosso papel como Comunidade não consiste em tomar partido ou indicar candidatos, mas colaborar na formação da consciência de cada cristão que tem o sagrado direito e o imperioso dever de contribuir com a construção de uma sociedade humana mais consonante com os valores do Evangelho de Cristo. A Doutrina Social Católica, em sua rica contribuição nos últimos cem anos, nos oferece critérios atuais que auxiliam de modo direto a exercer este direito e dever. Para mencionar alguns deles, guiar nossas escolhas a candidatos que expressem por ações a convicção de que o bem individual só se alcança através do bem comum, e que demonstrem a firme vontade de dar ao próximo o que lhe é devido pela simples e inalienável dignidade de ser homem. Não temos condições de descer em detalhes neste tema através de um editorial, até porque todo este tesouro de magistério é acessível ao toque de nossos dedos e visamos não orientar um voto, mas contribuir com a formação das consciências que desejam pelo caminho da verdade chegar à prática constante da caridade.

 

Vemos muitos cristãos confusos e sentindo-se obrigados a optar por esta ou aquela bandeira ideológica, onde estão a digladiar-se a justiça e a liberdade, e no final são sempre os mais pobres e vulneráveis a pagar a conta. De um lado se apresenta um modelo de sociedade inspirado no marxismo que, em nome de uma falsa justiça, sacrifica a liberdade e instrumentaliza a causa dos pobres em vista de um projeto totalitário de poder. Do outro, o liberalismo que absolutiza o mercado (em sentido econômico) e que, em nome de uma falsa liberdade, sacrifica a justiça deixando os pobres à mercê da crença de que a livre concorrência é capaz de resolver a desigualdade sistêmica. Em vez disso, a Igreja nos convida a um olhar mais crítico e que ultrapasse visões de sociedade baseadas em conceitos abstratos ou que criem rivalidades entre grupos de pessoas. Mais que isto, ela nos chama a uma real participação na vida civil, e a sermos marcadamente solidários e respeitosos das liberdades que encontram sua plenitude no fazer o bem.

 

“O bem da nação requer de todos a superação de interesses pessoais, partidários e corporativistas. A polarização de posições ideológicas, em clima fortemente emocional, gera a perda de objetividade e pode levar a divisões e violências que ameaçam a paz social.” (Nota da CNBB, 13 de Abril de 2016.)

 

Diante deste panorama, sinalizamos alguns critérios que consideramos coerentes para todos aqueles se sentem positivamente atingidos por nossas ações de evangelização e formação cristã. Busquemos candidatos que:

 

  • Expressem sua fé em sintonia com os valores do Evangelho, que significa dentre outras coisas valorizar a vida humana em todos os seus estágios e independente dos erros cometidos, e reconhecer na família segundo a lei natural a célula vital da sociedade;
  • Tenham um histórico de compromissos honrados, além da capacidade de liderar processos políticos e favorecer consensos;
  • Apresentem propostas de desenvolvimento econômico integradas à justiça social, que alcancem de modo especial os segmentos da população mais excluídos e marginalizados; e
  • Que sejam homens e mulheres de evidente honestidade e que pautem seus mandatos sob a égide da transparência e o combate à corrupção em todas as suas formas e níveis.

Devemos estar bastante atentos também à diversidade de competências de cada cargo público em votação. Estão em corrida eleitoral tanto cargos do poder executivo como do poder legislativo, uns na esfera federal e outros na estadual. Logo, analisar se as propostas e promessas de cada candidato são coerentes com a alçada do cargo a que se propõe já revela a seriedade, ou não, do compromisso do mesmo em cumprir seu discurso. Por esta e outras razões, faz-se necessário não somente conhecer a trajetória do candidato – e isto é fundamental -, como também suas propostas, e ainda o espectro ideológico e o programa de seu partido. O conhecimento deste último é mister sobretudo para os cargos onde se aplica o quociente eleitoral, ou seja, os casos onde voto num candidato e posso estar elegendo outro (deputados estaduais e federais).

 

A esperança cristã deve sempre sair fortalecida destes momentos difíceis, pois “por Cristo, com Cristo e em Cristo” todo o mal já foi vencido, e nós – seu Corpo – devemos edificar no mundo a civilização onde “amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam” (Sl 85,11). Cremos que o Senhor, que conta com a nossa colaboração, suscitará  homens e mulheres aptos a valorizar a política como a arte do bem comum e lugar privilegiado para o exercício da caridade; fortalecer nossas instituições, e assim a Democracia; promover o desenvolvimento regional, a integração nacional e a paz internacional; e implementar políticas que valorizem a dignidade do homem e seu trabalho.

 

“Ninguém pode exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos… Uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela.” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 183)

 

Votemos com discernimento e, para fazê-lo bem, três conselhos: a oração que desperta os sentidos espirituais; ter como referência Jesus, seu Evangelho e os ensinamentos de sua Igreja; e o espírito de comunhão que gera em nós o desejo sincero pelo bem uns dos outros.