Hedonismo: O prazer acima de tudo? Parte III

Hedonismo: O prazer acima de tudo? Parte III

Uma maneira interessante de perceber a diferença é notar como a história dos apóstolos e dos pais da igreja quase sempre terminava. Todos sofreram perseguição, prisões, exílio e muitos foram feitos mártires. Contudo, na história desses homens, sua caminhada para o martírio não é descrito que os mesmos sentiam tristeza, pesar ou medo, mas iam para a morte com um brilho nos olhos e a certeza da salvação, honrados por sofrerem pelo nome de Cristo. Certamente não falamos aqui de masoquistas, pois é óbvio que todos prefeririam viver, mas saber que a morte não era o fim e ter certeza de sua salvação criava um novo significado para a vida destes homens.

 

Como isso aparece na igreja?

 

Atualmente, “ter” uma igreja se tornou um negócio muito rentável. As pessoas estão dispostas a pagar para não terem mais problemas e chateações na vida. Para estas igrejas e seus líderes, Deus está aí para isso mesmo.

 

O verdadeiro evangelho gera incômodo. O evangelho baseado no prazer e nas bênçãos, sem resignação e provações, é o que lota as igrejas atualmente.

 

 

O que a Bíblia diz a respeito

 

Servir a Deus não é garantia de que tudo vai nos dar prazer o tempo todo. Muitos servos de Deus passaram por adversidades e nem por isso estavam fora da vontade de Deus.

 

O livro de Jó é um exemplo do que acontece numa vida de fé: podemos ter tanto bons momentos quanto provações terríveis.

 

O próprio livro de Jó é um excelente exemplo. Alguns pregadores querem insistir que Jó ainda não era um servo de Deus de fato e que ainda não havia experimentado uma real conversão quando passou por toda a provação infernal imposta por Satanás. Se isso fosse verdade, por que Deus se refere a Jó como seu servo desde a primeira menção do Senhor a ele? E qual seria o mérito do teste, senão provar a Satanás que as provações não fariam que Jó negasse a Deus, já que ele ainda não era “convertido”? A história de Jó tão somente é a prova maior de que servir a Deus não é nenhuma garantia de prazer contínuo e nulidade de sofrimento. Veja que não é o mesmo que gostar de sofrer ou conformar-se com a dor. Jó reclama de sua situação diversas vezes, mas em momento algum confronta ou nega a Deus pelas suas perdas.

 

O cristão não vive apenas para os prazeres desse mundo. O apóstolo Paulo disse a seu discípulo Timóteo que, nos últimos tempos, tudo seria mais difícil e, entre outras coisas, as pessoas seriam mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus (II Tm. 3:1-5) e que só ouviriam o que lhes interessariam, recusando a verdade (II Tm. 4:3-5). Jesus mesmo preveniu a seus discípulos que servir a Ele não era garantia de vida tranquila, mas que muitas vezes seriam alvo de ódio (Mt. 24:9-13). Mesmo na antiga aliança, já se sabia que a busca exacerbada de prazer era fútil (Ec. 2:1) e razão da ruína (Pv. 21:17). As dores, dificuldades e provações fazem parte da trajetória de fé e nos ensinam a amar e confiar em Deus. O apóstolo Pedro não apenas confirma esta posição, mas também afirma que é melhor sofrer fazendo o bem do que fazer o mal (I Pe. 3:14-17). Novamente Paulo, quando passava por uma provação que ele mesmo chamou de “espinho na carne”, afirma que provações assim são necessárias para que o Espírito seja aperfeiçoado. O prazer deve estar em servir ao Senhor por amor, fazendo tudo segundo a Sua santa vontade (Salmo 1:1-2), ainda que isso gere dores, dissabores e provações nesta vida. Na bastante conhecida Galeria da Fé, em Hebreus, o autor relembra que os verdadeiros servos de Deus sempre foram detestados pelo mundo, que nem mesmo era digno deles, e muitas vezes tiveram um fim atroz para suas vidas terrenas (Hb. 11:1-40). O autor de Hebreus ainda lembra que todo pai que ama o filho às vezes precisa recorrer à correção e ao castigo, e que com Deus não é diferente; o filho só alcançará a compreensão de que essa atitude é necessária e importante quando crescer e amadurecer, por isso cabe a nós aceitarmos e tentarmos entender o querer de Deus para nós (Hb. 12:5-16). A provação da fé produz perseverança e nos torna servos melhores (Tg. 1:2-3).

 

Deus não prometeu a ninguém uma vida livre de dor e sofrimento. Certo?

 

Na verdade, errado!

 

É uma questão de perspectiva bíblica. Deus não prometeu uma vida livre de dor e sofrimento neste mundo. Já próximo ao fim da vida, Paulo antevia o que lhe aguardava em breve, crendo que seria levado a salvo ao Reino Celestial (II Tm. 4:18), independente do que acontecesse a ele nesta vida. Em Apocalipse, a Bíblia descreve a visão dos glorificados, aqueles que foram redimidos pelo sacrifício de Jesus, dizendo que nunca mais passarão por privações como fome, sede ou o ardor do sol e, além disso, “Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (Ap. 7:14-17).

 

Nosso objetivo em vida não deve ser voltada apenas para a busca dos prazeres. Nossa principal função deve ser cumprir a vontade de Deus, conforme é exposto na resposta da primeira pergunta do Breve Catecismo: “O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.