"Vida cristã não é só ir à igreja aos domingos, mas ser igreja aonde você for!”

“Fazei o bem a todos”: os cristãos e a responsabilidade social

 

Na maior parte da história da igreja os cristãos entenderam que o socorro aos sofredores era uma parte importante da sua vocação no mundo. Eles não acreditavam que havia qualquer conflito entre essa preocupação e outros interesses da vida cristã.

 

O precedente bíblico

O Antigo Testamento e Novo Testamento estão repleto de preceitos e narrativas referentes à temática social. As figuras do pobre, do órfão, da viúva e de outras pessoas em situação de desamparo povoam as Escrituras Hebraicas. A lei de Moisés continha dispositivos que iam além do mero atendimento de necessidades imediatas, criando condições para que houvesse menor desigualdade na sociedade de Israel. No Novo Testamento há vários exemplos de Jesus Cristo acolhendo os mais necessitados, fazendo por ações e em suas pregações alusões sobre a justiça, a misericórdia e a generosidade no trato com os sofredores.

 

Jesus retomou e aprofundou essas preocupações. Numa época em que a religiosidade judaica havia se cristalizado em torno de três práticas formais – esmolas, oração e jejum – o Senhor corrigiu algumas distorções vigentes, ensinando que a prática da caridade deveria ser humilde, desinteressada e motivada pelo amor (Mt 5.7; 6.1-4; 7.12). Ao anunciar o evangelho do reino, Ele apontou como uma de suas características a sensibilidade diante da dor alheia e a prontidão em assistir os desafortunados. Ele mostrou isso de modo magistral por meio de alguns de seus ensinos mais apreciados, como a parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37) e a inquietante história do Grande Julgamento (Mt 25.31-46).

 

Na mente das primeiras gerações de cristãos ficou a imagem de Jesus como alguém que passou pelo mundo fazendo o bem (At 10.38). O ensino apostólico colocou a beneficência no centro da vida cristã – a misericórdia ou benignidade é um dos dons espirituais e um fruto do Espírito (Rm 12.8; Gl 5.22); deve-se fazer o bem a todos, a começar dos irmãos (Gl 6.9-10); a solidariedade deve ir além das meras palavras, para manifestar-se em ações concretas (Tg 2.15,16; 1 Jo 3.17,18).

A experiência da igreja

Os primeiros cristãos atribuíam grande valor à prática da misericórdia. A hospitalidade e as ofertas para fins caritativos eram generalizadas entre os fiéis. Um documento da época afirma: “O jejum é melhor que a oração, mas as esmolas melhores que ambos” As histórias narradas na Bíblia falam de vários exemplos, tais como cristãos que se vendiam como escravos para poderem socorrer os necessitados (55.2). Quando surgiam epidemias, os fiéis não deixavam de dar assistência aos enfermos e de sepultar os mortos. As viúvas, os órfãos, os enfermos e as crianças recebiam especial cuidado.

 

Nós católicos podemos dar uma resposta bíblica e cristã à situação de abandono experimentada pelos trabalhadores e imigrantes que vivem nos cortiços, favelas das grandes cidades. Podemos internalizar nas nossas ações cotidianas conceitos como “a implantação do reino de Deus na terra” e a importância de uma “sociedade redimida”. O evangelho social tende a dar uma ênfase à transformação da sociedade, vê a missão cristã no mundo principalmente em termos de ação social e tem uma esperança em relação ao ser humano.

 

Conclusão

À luz da Liturgia diária nas missas, do exemplo de Cristo e das lições da história, os cristãos não podem ignorar o desafio social. Como a justiça social é uma das implicações do evangelho, evitar essa área acarreta sérias dificuldades para a consciência cristã e para o testemunho cristão. Num mundo afligido por tantas situações que atentam contra a vida, a dignidade e o bem-estar dos seres humanos, é mister que os cristãos redobrem os seus esforços no sentido de seguir os passos daquele que “andou pela terra fazendo o bem”.